Blog do Orlando Costa

Um pouco de tudo, um muito de nada

“É muito diz-que-me-diz”. Assim o vereador Marco Aurélio Martins Rodrigues, o “Marcão do Gazeta”, do PSDB, desqualificou os comentários em torno do assunto “Zé Rizzatti-Geninho” (leia texto na postagem anterior), que ganhou as ruas nas últimas horas. O vereador tucano ocupou a tribuna da Câmara na noite de segunda-feira, 25, durante sessão ordinária, para tentar botar um paradeiro no conversê.

“São só comentários, esclareço que não existe problema do partido com o prefeito. Não existe nenhuma rusga”, garantiu o vereador. De acordo com Marcão, tudo, até agora, não passou de “inverdades, fofocas, maldade. Somos da situação, da base do Governo”, acentuou.

Marcão obteve a solidariedade do colega Leandro Marcelo dos Santos, o Marcelo da Branca, do PSL, que em seguida ocupou a Tribuna para defender a postura do PSDB mas, principalmente, para defender e elogiar o vice-prefeito Gustavo Pimenta, para quem se trata “de uma pessoa digna, honrada e honesta”. E que jamais agiria contra seu grupo.

Mas é fato que a aparição de Rizzatti no cenário político depois de um longo período de hibernação, causou constrangimento geral no seio do poder, tanto mais pelas colocações feitas, insinuações jogadas ao vento e a crucificação do gerenciamento da Saúde no município. O ex-prefeito agiu como o dragão que guarda o tesouro do castelo. Dorme entre as jóias mas, quando acorda, cospe fogo para todos os lados.

COINCIDÊNCIA
Esta semana a Imprensa Oficial do Município deve trazer novidades. Ainda não se sabe exatamente do que se trata, mas existe a possibilidade de haver, segundo o blog apurou, um mexe-mexe, um troca-troca nas hostes palacianas. Teria funcionário subindo, funcionário “descendo”, e até troca de Pastas. Isso faria parte da prometida reformulação administrativa, sem nenhuma ligação com os acontecimentos dos últimos dias, garante a fonte, que é segura. Esta mesma fonte aposta que não haverá, no entanto, sacudidelas ou mudanças na Câmara de Vereadores. É esperar para ver.

E TEM MAIS
Para quem achou que bastava o ex-prefeito ter feito o que fez para gerar o máximo de constrangimento é porque não leu a Imprensa Oficial de sábado passado, 23. Nela, à página 7, quatro presidentes de Conselhos Municipais fizeram publicar um Manifesto, cobrando do Executivo Municipal uma atitude com relação à criação do Fundo Municipal, por meio do qual é destinado recursos para que elas possam desenvolver suas ações sociais.

Os quatro dizem que a culpa pelo entrave é dos setores de Finanças e Jurídico, o que gerou “saia-justa” junto aos responsáveis por estes setores, quais sejam, Cleber José Cizoto e Edilson De Nadai, respectivamente.

Não se sabe até agora, como isso foi possível. Entidades que recebem subvenções municipais, usarem de um veículo custeado pelo município, para publicarem um Manifesto que, aliás, foi escrito em papel ofício timbrado “Prefeitura Municipal-Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social-Secretaria Executiva dos Conselhos de Direito e Apoio às Entidades”.

Ninguém entendeu nada. E, mais uma vez, lembrando, três destes Conselhos são atrelados à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Aquela mesma de Gustavo Pimenta, que já tinha para descascar o abacaxi chamado Rizzatti.

Uma alta fonte do Governo não quis se manifestar hoje sobre o assunto, dizendo ser uma questão interna, que será resolvida internamente. “Podiam ter notificado o prefeito a respeito e não escancarar um problema que é de ordem interna”, queixou-se esta fonte.

Até.

O TROCO DE RIZZATTI E A ‘SAIA-JUSTA’ DOS TUCANOS

Olímpia acaba de vivenciar o chamado “fogo amigo”, que é quando parceiros político-partidários se atacam. Claro, “fogo amigo” se José Fernando Rizzatti (PSDB), ex-prefeito de Olímpia (1989-1992/1997-2000) ainda puder ser considerado amigo do prefeito Geninho (DEM), depois de ter sido defenestrado da Secretaria Municipal de Agricultura, cargo que assumiu por compromisso de campanha.

E, considerando o fato de que Rizzatti é prócer do partido do vice-prefeito, Gustavo Pimenta, seria sim, “fogo amigo”, mas queimando nos arredores do vice. Esse bate-boca entre o ex e o atual prefeito coloca em saia justa Pimenta, já que leva a mil ilações. Até mesmo a de que o grupo do vice estaria, eventualmente, batendo de frente com o alcaide.

Na verdade, Rizzatti teria agido em legítima defesa, já que foi indiretamente criticado pelo prefeito em recente reunião com sem tetos no Gabinete. Mas ele não foi o único. Seus antecessores também o foram, e pelo mesmo motivo: a alegada pouca disposição para implantar moradias populares no município. Mas Rizzatti melindrou-se mais. E foi à Difusora AM responder à provocação.

Não ficou, porém, só na resposta. Partiu para a crítica, taxando a atual administração de medíocre nos quesitos Saúde e atenção ao turismo. No meio tucano a atitude do ex-prefeito causou desconforto, já que as principais figuras do tucanato local estão encasteladas no poder. E das principais figuras, somente ele foi defenestrado, numa situação até hoje mal explicada. Ou seria numa situação auto-explicável?

Hoje quem comanda a Pasta agrícola é o vereador licenciado Dirceu Bertoco, cujo partido, o PR, havia colocado dois candidatos a vereador na primeira linha da suplência à Câmara, onde hoje estão, substituindo ao próprio Bertoco e a Gustavo Zanette (PSB), secretário de Cultura, Esportes, Turismo e Lazer. Dizem nos bastidores que o secretário atual e o ex não se comunicam há tempos.

Nesta cruzada empreendida de defesa do próprio nome e da sua administração, Rizzatti atira uma pedra para o ar ao insinuar má-gestão dos recursos públicos, ao comparar o orçamento de R$ 30 milhões que tinha em seu tempo com o R$ 180 milhões do Orçamento que Geninho tem hoje, 14 anos depois. “É uma diferença muito grande”, diz ele, no entanto parando por aí.

Depois, o ex-prefeito, de certa forma, condena o “boom” turístico da cidade, no aspecto imobiliário, já que, para ele, “as invasões de sem tetos são geradas pela especulação imobiliária gerada pelo desenvolvimento do turismo”. Os mais pobres, moradores nas imediações do Thermas dos Laranjais, estão tendo seus imóveis “mais valorizados e mais procurados por grandes investidores”, analisou.

E os assentamentos de sem tetos que foram registrados nos últimos anos “são gerados pela especulação imobiliária, no caso de Olímpia, gerada pelo desenvolvimento do segmento turístico. A Prefeitura tem que estar atenda para isso”, cobrou.

A especulação está tomando conta na cidade, é o que ele dá a entender. E ela estaria sendo praticada por grandes investidores do setor imobiliário. “O Social e a prefeitura vão ter que medir muito bem essa questão”, observou.

De sua parte, diz que deu início ao processo de desfavelamento do então chamado Pedregal (nome dado pelo próprio povo, por causa de uma novela de TV exibida na ocasião - anos 70). Diz que inicialmente realizou as obras de infraestrutura, comprou terrenos, somando 17 mil metros quadrados, para desalojar 450 barracos. No entanto, este trabalho de urbanização ali atravessou praticamente três gestões - duas de Rizzatti, uma de José Carlos Moreira (1993-1996).

Ainda na gestão Carneiro (2001-2004/2005-2008) se fez alguma coisa ali. E o local ainda está longe de ser o mais adequado, o mais confortável.

“Não estou aqui para criar polêmica, não estou aqui para criar uma discussão. Eu não venho a uma emissora de rádio há muito tempo, mas às vezes a gente se sente humilhado. Então, a verdade é que no meu governo nós fizemos quase duas mil casas. Essa é a questão. Naquela época eu tinha uma dificuldade muito grande porque a caixa (CEF) não tinha esses programas”, afirmou à emissora.

Relacionou como suas as obras de implantação da Cohab III (Conjunto Helio Casarini) e a Cohab IV (Conjunto Alfredo Zucca). “A Cohab III começou com o (ex-prefeito) Wilson (Zangirolami-1983-1988), que comprou o terreno, mas o grosso ficou para minha administração”, lembrou. Casas nos distritos, conjunto Esperandio Christófolo (CDHU II), Tropical II, Campo Belo e Alvorada? Foi Rizzatti quem fez, segundo diz, mas alguns concluídos por José Carlos Moreira. “Então, a participação do meu governo foi muito importante”, arrematou.

Resta saber como isso será digerido, ao longo dos dias, pela cúpula tucana, e se não azedará de vez a relação do partido com o DEM. Como se sabe, foram os tucanos que viabilizaram a candidatura, a eleição e a reeleição de Geninho para o cargo.

Não fosse o aval do partido no primeiro momento a Geninho, talvez ele nem tivesse se aventurado a disputar a cadeira da Nove de Julho. E Rizzatti foi ao palanque, falou, bradou contra os adversários. E o homem se fez prefeito.

Queremos crer agora que, ou Rizzatti expõe seu arrependimento tardio ou recolha-se, se arrependido do apoio emprestado não estiver. Ficar remoendo dorezinhas, se melindrando com coisas passadas não é aceitável em quem se posta ainda como líder de uma facção política local.

Até.

ENTRE ELOGIOS E UM DESEJO: FESTA EM AGOSTO

Para a secretária municipal de Educação, Eliana Bertoncelo Monteiro, o 50º Festival do Folclore, que se encerrou no domingo, “superou as expectativas”. Ela enalteceu muito a participação e o engajamento das escolas e alunos das redes Municipal e Estadual de Ensino na festa, o que só foi possível por ser no mês de agosto. “Sempre acreditei no Folclore no mês de agosto”, disse ela. Eliana disse que também facilitou a vinda de alunos de outras cidades para a festa.

“O Fefol em agosto possibilitou uma maior movimentação no Recinto, seja nos seminários, seja no minifestival, seja nas gincanas”, disse a secretária, que lembrou a maior participação de instituições municipais e estaduais. “Avaliamos que a participação foi muito boa das escolas do Estado. Por isso superou, a meu ver, todas as expectativas”.

“O Seminário não tinha a participação de alunos das estaduais. É semente que está germinando, dando frutos”, avalia. “Sempre acreditei no Folclore no mês de agosto. Temos crianças nas salas de aula para trazer. Por outro lado, as escolas ficam ocupadas pelos grupos, mas isso não significa folga para os professores. Trabalhamos o tempo todo em torno do Festival”, explica a secretária. “De manhã nos seminários, à tarde no minifestival”, completa.

“Fazendo o Festival em julho, vão comentar que é vantagem por não ter aulas. Mas, as escolas são reservadas antes. E temos de participar, e em agosto, temos um ganho muito grande neste aspecto”, diz Eliana, para quem, no entanto, o Fefol em agosto, na área da Educação, ainda não é assunto fechado.

“Vamos consultar a categoria. Mas a ideia de valorização dos alunos é em agosto mesmo”, acentua. “Além do que, é o mês em que comemoramos o Folclore (hoje, dia 22 de agosto). E eu fui educada com o Festival em agosto. E acho que todos os diretores de escolas também”, finalizou.

Até.

E termina mais uma edição do Festival do Folclore de Olímpia. E, como há 50 anos, mas muito mais fortemente nos últimos 30 anos, vai-se o Festival, fica a polêmica: o que fazer para dar uma nova dinâmica ao evento? Vale a pena insistir em sua realização? O público, que comparece em pequeno número às apresentações de palanque, não prestigia a festa cultural que tem, a maior do país em seu gênero? Por quê? Não gosta do que vê ou não entende o suficiente para gostar do que vê? E assim por diante.

Sim, porque supomos que ninguém pode gostar daquilo que não compreende, que não entende. Daí recomeçar tudo, ou começar do começo. Tratar estes primeiros 50 anos do evento como um ciclo que se encerrou e a partir de agora praticamente “começar de novo” talvez seja o ponto. Não sugerimos aqui o esquecimento quanto ao que já foi feito, quanto ao que já se estruturou materialmente e imaterialmente. Mas, talvez, quem sabe, usar este patrimônio como ponto de partida.

Pelo menos não estaríamos “começando” do zero, como o saudoso, corajoso e idealista mestre Sant’anna o fez. Talvez seja este mesmo o caminho. Talvez até aprovado por ele, se consultado pudesse ser. Não há como negar que o Fefol de Olímpia, à esta altura, está na sua fase de esgotamento. Como esgotados estão aqueles que ainda hoje cuidam do legado de Sant’anna. Nem eles podem negar isso. Está explícito em cada semblante. Só o amor os move. A emoção de cada edição concluída.

Mas, a começar pelo público, este não pode ser responsabilizado por não ter paciência de permanecer nas arquibancadas para ver folias de reis, moçambiques, congadas e, em seu favor, diga-se, tampouco os grupos parafolclóricos que aqui aportam, tão ao gosto de tantos espectadores.

No primeiro caso, não veem porque não compreendem, não assimilaram que importância tem aquilo, que finalidade tem. No segundo caso, o “pecado” é o da repetição. Da insistência com grupos que, a bem da verdade, muitas vezes são chatos, enfadonhos e pouco chamativos. E outros já pecam pelo exagero, ficando próximo ao teatro ou à carnavalização do fato folclórico. Isso confunde e afasta as pessoas.

Daí o “começar de novo”. Ir-se à raiz do problema talvez seja um bom ponto de partida. Aproveitemos este momento, que bem poderia ser de transição, para buscar respostas a tantas e tamanhas indagações. E a partir daí dar um norte, um sul, enfim, uma coordenada que passe mais pela educação, pelo conhecimento, pela difusão da cultura, pela preservação de nossas raízes - embora o “moderno” -, que pelo espetáculo puro e simples, este sinuoso caminho ao qual se está quase sucumbindo.

O primeiro passo é manter inalterado o mês de sua realização, já que antecipar para julho revelou-se uma perfeita estupidez. Depois, debater, debater e debater. As várias correntes do pensamento no entorno do Festival - porque as há -, trocando impressões, opiniões, visões de mundo folclórico. Como se deu durante o ciclo de palestras em Etnomusicologia, quando posições conflitantes num bom sentido, foram postas à mesa. Aquilo foi extremamente saudável.

Pode ser esse o gancho, outros “pensadores” podem ser agregados e assim o debate ser enriquecido ao longo do ano. E todos mantendo a cabeça aberta, a alma receptiva ao que vier, quem sabe abriremos um novo ciclo no festival. O Fefol de Olímpia, acreditamos, foi idealizado para ser pensado, não para ser vislumbrado. E é o segundo que tem prevalecido cada vez mais. E isso o mestre não aprovaria, se consultado pudesse ser.

Espera-se, todos os anos, que os acadêmicos voltem, que os pesquisadores voltem, que os universitários se interessem pelo mar de cultura que escorre por aqui todo agosto (?). Mas, o que estaremos dando a eles? Danças, danças, e mais danças? Estas deveriam ser apenas o coroamento de dias cheios de informações e trocas de experiências, difusão cultural, de maneira a que cada um saia mais rico a cada dia daquele recinto. Se não, será tempo perdido. Dinheiro e esforços gastos em vão.

Porque se for para fazer um simples encontro de danças, então que o façamos. É mais fácil, mais palatável ao grande público, com menores dificuldades para captar recursos porque seria espetáculo, show (até musical, sem culpas), sem a menor responsabilidade cultural e de preservação da história brasileira, nossa raiz, que se tem hoje. E ninguém também precisaria ficar arrotando conhecimento, cultura e intelectualismo.

É uma festa, uma exibição de cores e ritmos, e música, muita música! Confesso, seria tão mais fácil se assim o fosse. Mas assim não o é. E nossa responsabilidade é enorme, em função disso. Se não formos capazes de lidar, cuidar e aprimorar (talvez fosse melhor dizer, trazer de volta o “furor” cultural do Festival), para que serviremos, então?

Portanto, começar de novo, e agora, é imprescindível. Como? Quem sabe uma mesa - ou mesas - de debates pode apontar o caminho a seguir. Quem racionalizando sobre o que há por fazer possamos seguir por este caminho sem tropeços, sem atropelos, seguindo firmes e seguros trabalhando para que ninguém esqueça aquilo que temos de mais caro, porque não é nosso, nos foi legado: o Festival do Folclore.

Até.

Também durante o Ciclo de Palestras em Etnomusicologia realizado nos dias 11 e 12 no Pavilhão Cultural do Recinto do Folclore, foi possível conhecer a visão de outros dois acadêmicos da Unicamp, não só quanto ao Folclore em si, mas também quanto Festival do Folclore de Olímpia como um todo.

Para o olimpiense Estevão Amaro dos Reis, por exemplo, “o Fefol de Olímpia já foi referência para criação de festivais no Estado de SP. Era tido como festival-padrão, um paradigma a ser seguido”. Já seu colega Marcos Filho, também palestrante, acha “difícil definir exatamente o que é Folclore, porque este pensamento muda muito”. Para a Academia, diz ele, “(a palavra) Folclore é um pecado utilizar”. Mas, “em Olímpia, se pode falar ‘Folclore’ livremente”, comemora.

Para substituir a designação “Folclore”, hoje se usa muito “manifestações de tradição oral”, para tentar separar um pouco das manifestações midiáticas, de acordo com Marcos Filho.

Estevão Amaro diz que ao longo do tempo em que Olímpia era referência com seu Festival, houve transformação de conceitos, veio o viés da cultura popular, “e isso mudou nas estâncias de fomento”, ou seja, seria essa uma das causas da dificuldade de Olímpia conseguir financiamento.

“O paradigma mudou e Olímpia ficou no meio do caminho com o Festival. Um pouco por desconhecimento, as estâncias que decidem não conhecem profundamente, então pega essa carga negativa da palavra Folclore e se estende aos festivais, tipo ‘já não se pensa mais no Folclore, e não compensa botar dinheiro público nisso’, prossegue Estevão Reis.

“Mas já foi um formador”, observa, lembrando, no entanto, que “ainda pode continuar sendo”.  Para tanto, é preciso formar uma conceituação de Folclore para estudar o festival. “E será que a partir disso não se consegue argumentação junto aos órgãos de financiamento público?”, pergunta. “O Folclore se tornou uma ‘coisa’, uma carga negativa. Tem que se trabalhar para mudar esta concepção”, pede.

“Então, o que é Folclore?”, pergunta Marcos Filho. “Acho que é o que está ligado a essa música de um ritual de trabalho, um ritual religioso, uma prática festiva que celebra colheita, que celebra seca, etc. Musica que não tem uma origem muito clara. Não é elaborada, não tem origem racional. Brota das raízes do chão”, responde.

Estevão entende que tal situação em relação ao Folclore “se dá mais pelo embate que teve entre os cientistas sociais”. Em Olímpia, ele conta, houve um período no qual o professor José Sant´anna trouxe cientistas sociais para uma aproximação, “mas deu tanto problema que ele abandou a ideia, e tocou o festival sem eles”.

“O momento do professor Sant´anna tinha uma atitude em relação aos grupos que se ‘modernizavam’. Era uma defesa importante para aquele momento. Não existe um pensamento das cidades e dos próprios grupos, de que aquilo é importante, precisa ser preservado. É necessário que se pense mais nisso, que se discuta”, pede Marcos Filho.

Até.

Responsável por defender o tema “Folclore e Patrimonialização” no Ciclo de Palestras em Etnomusicologia realizado ontem, segunda-feira, 11, e hoje, terça-feira, 12, pela manhã, Alessandra Ribeiro Martins, da Pontifícia Universidade Católica, a PUC, de Campinas, pregou que ainda existe a necessidade de que as comunidades continuem lutando para preservar suas raízes culturais e étnicas.

Ela praticamente vai na contramão do que defende sua colega de academia Érica Giesbrecht (leia entrevista abaixo), que tem um olhar mais condescendente sobre a questão. “Eu penso que a gente tem que dialogar com os tempos modernos sem perder nossas raízes”, diz ela. Ou, então, quem não quiser isso, não faça, “mas que não venha dizer que está fazendo a raiz”, cobra Alessandra. “É aí que vejo a diferença entre os grupos artísticos e os grupos de raiz”, completa.

Alessandra Martins Ribeiro é Graduada em História e mestre em Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), e atualmente realiza o seu doutorado em Urbanismo pela mesma universidade. Especialista em estudos sobre Cultura Afro Brasileira atua como gestora da Casa de Cultura Fazenda Roseira, espaço de práticas e formação da cultura afro e constitui a liderança da Comunidade de Jongo Dito Ribeiro, patrimônio imaterial nacional. Tem como principais temas de atuação: requalificação urbana, jongo/caxambu, cultura negra, participação popular e patrimônio cultural material e imaterial.

Alessandra conversou com o blog na tarde de ontem, após palestra para professores, integrantes de grupos, alunos e interessados, no Pavilhão Cultural do Recinto de Atividades Folclóricas “Professor José Sant´anna.

Blog: Conversava ainda há pouco com a Érica (Giesbrecht, palestrante que a antecedeu) e comentava com ela a respeito das colocações feitas no sentido de que as manifestações folclóricas podem perfeitamente se adaptarem ao momento atual, o que seria uma espécie de “modernização” do Folclore. E nas suas colocações - até comentei isso com ela - me pereceu que você foi um pouco no sentido oposto disso. É isso mesmo? Ou eu não entendi direito?

Alessandra: É isso mesmo. Eu penso que a gente tem que dialogar com os tempos modernos sem perder nossas raízes. Ou optar e não dizer que a gente está fazendo a raiz. É aí que vejo a diferença entre os grupos artísticos e os grupos de raiz.

Eles realmente estão em lugares diferentes. Podemos colocá-los todos juntos no Festival, vê que tem grupos que são realmente folclóricos, mas que tem grupos que para além da ação da manifestação, ele é uma comunidade, ele vive daquilo, e é aquilo que é o guia do que ele faz. Acho legal todo fazer, mas sabendo de onde está fazendo e por que está fazendo.

Blog: No caso de vocês, por exemplo, que tem lá a sua comunidade de Jongo, Campinas tem as suas comunidades de Jongo, que se apresentam, que se reúnem, enfim, que transmitem informação. Ali, vocês admitem, aceitam, vamos dizer assim, esta abertura, ou fazem questão de que seja autêntica, de família, de raiz?

Alessandra: Lá (risos [começa a cantar uma canção de Jongo]) a gente vai interagir, vai usar as ferramentas do cotidiano, como potência para nossas ações, mas na hora da prática a gente vai tirar o sapato, esquentar o tambu no fogo, afinar na corda e nossos jovens vão mandar o whatsapp e vão fazer o mesmo também.

Blog: Certo, os recursos eletrônicos enquanto ferramentas de divulgação, e não enquanto ferramentas para serem incorporadas à manifestação…

Alessandra: Não. Eu concordo num sentido, “poxa, se meu tambu é pesado e eu não consigo carregá-lo na corda, vou por um adereço que eu possa carregá-lo com mais leveza, mas eu não vou mudar o meu tambu.

Blog: Seria mais ou menos uma espécie de “você pode fazer o que eu falo, mas eu não faço o que eu falo”?

Alessandra: Não, eu sou do tipo “falo e faço”, eu mantenho a minha tradição. Agora, se antes o nosso povo carregava o tambu no lombo, eu vou por no meu carro zero e carregar o meu tambu pesado, eu vou dialogar com o que eu tenho no futuro para amenizar. Não é porque eu tenho uma tradição que eu tenho que ser duro.

A gente só mantem o que a gente ama. Mas eu vou manter o que é tradicional, eu não vou trocar os nossos tambores, não porque eu julgue que isso não seja importante que tenha quem faça. É que eu acho que ou você deixa a comunidade da tradição, ou você vai ser o grupo cultural que vai fazer essa tradição como qualquer outra. Cada um no seu lugar. Eu sou uma comunidade tradicional.

Blog: E ali para vocês vale a essência, o que veio lá de trás?

Alessandra: Isso para a gente é fundamental.

Blog: Mas ao mesmo tempo você prega também, como a Érica, a “modernização” das manifestações?

Alessandra: Não, eu não prego, mas eu respeito. Porque eu sei, por exemplo, que quando a gente falar “quando eu estou no meu espaço urbano, falando que eu vou manter o meu tambu, eu estou no meio da cidade, eu tenho a possibilidade e todos os elementos que eu tenho e eu faço a escolha. Mas reconheço que muitas comunidades tradicionais não têm acesso a isso.

Eu tenho comunidades de Jongo que trocaram os tambores escavados por congas. E isso me incomodou porque eu achava que era uma quebra de tradição. Mas quando eu fui lá para a realidade deles, no cotidiano deles, para eles, terem a conga foi um avanço, uma conquista. Não porque não saibam escavar o tambu ou não saibam a importância que o tambu tem. Mas porque eles acham que a conga é uma melhora.

Então, esse olhar é muito interno, é muito local. Acho muito complicado, e nesse sentido compactuo com a Erica e respeito, você está de fora e falar “aquele que está com o tambu é tradicional, e aquele com a conga não é, porque, de repente, aquele que está com o tambu tradicional não soube escavar o tambu para fazer, mas pode ser que ele comprou da comunidade que está com a conga. Que toca hoje com a conga, mas mantém isso até hoje.

Então, cada comunidade sabe a realidade que tem, e os limites, os desafios que tem. E isso acho também que é muito da comunidade. Claro que, quando ela vem para fora, quando está aberta a comparativos, eu, como pesquisadora, vou sempre olhar e falar “olha, por que será que aquela comunidade hoje está com a conga, e aquela outra está com aquilo?” Eu vou ter sempre o olhar curioso de entender. Sem perder a generosidade de saber como que aquilo se deu na própria comunidade, no próprio território.

Blog: Só para esclarecer, explica a conga e o tambu escavado.

Alessandra: A conga é um instrumento percussivo que você pode comprar em qualquer loja de música, que tem um grave, um meio grave, um mais agudo, que faz um compasso rítmico de Jongo também. O tambu escavado é quando você vai lá, escolhe a época do ano, escolhe a árvore, “cavuca” a arvore, que é correta para fazer couro, pega o couro do animal, põe para secar, prega e também faz o tambu. Você vai chegar num resultado sonoro muito próximo, mas num processo histórico de vivência comunitária, com certeza diferenciado.

Blog: Daí o seu incômodo? Porque a conga, para você, seria uma descaracterização, ou não?

Alessandra: Quando a conga vem para a tradição, eu vejo como uma descaracterização. Mas eu não faço julgamento de dizer “aquela comunidade perdeu a referência”, sem antes saber que comunidade é e como que a conga chegou lá.

Porque talvez para aquela comunidade, estar com a conga no palco, é a facilidade para ir tocar, mas quando ela está lá na casa dela todo dia, todo mundo sabe que árvore que tira, como que corta, como seca e como monta o tambu, e talvez ela acha que é tão precioso que tem que ficar dentro da casa dela, não na rua.

É aquela brincadeira, ‘eronibaba kojadê erobabarisorô” (escrito conforme ouvido) - “Meu pai me contou um segredo e esse segredo eu guardo no meu quintal”. Talvez para aquela comunidade seja aquilo, como talvez pode ser efetivamente uma nova inserção, uma mudança. Acho que não podemos perder o olhar de tentar entender em que contexto aquilo se deu.

Blog: Na sua comunidade é o tambu escavado?

Alessandra: Na nossa comunidade nosso tambu não é escavado, mas são as barricas de vinho da maneira que eram utilizadas antigamente.

Até.

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