Blog do Orlando Costa

Verba volant, scripta manent – 10 Anos

Tag: Festival do Folclore

VEM AÍ O 55º FEFOL: NOSSAS ALMAS VÃO REAGIR?

O grande dilema dos nossos festivais de Folclore continua e será sempre um divisor entre “ser grande ou ser essência”, conforme já abordado neste blog tempos atrás. Vê-se que, de lá até então, nada mudou em relação a esta questão.

Entra governo e sai governo, entra ano e sai ano, entra festival e sai festival, todos no seu entorno se gaba de estar fazendo “o melhor isso e aquilo, disso e daquilo” pelo evento e coisa e tal. Ledo engano.

Nós, da comunicação olimpiense, estamos sempre fazendo a mesma crítica e cobrando de quem de direito as mesmas coisas, basicamente respeito e reverência ao fato. Mas a gente acaba percebendo que, salvo uma coisinha e outra, tudo sempre muda para pior. Ou no mínimo tende a ser uma mudança para pior.

Sempre após uma edição da festa, o que deve permanecer na memória e na alma das pessoas é a saudade dos sons, as canções, as danças, as cores, os ritmos. Embora algumas destas canções, em alguns momentos, soem como lamento.

Sempre se diz, também, que a partir daquele momento do encerramento da festa, já se começa a pensar na festa do ano que vem. Mas, se tudo não estiver na alma, na mente e no coração das pessoas, nada em torno do Festival poderá ser feito além.

Neste mesmo fim de festa, inclusive, os discursos mudam de rumo, passam a ser no sentido de reafirmar o compromisso da cidade, de seu povo e, principalmente, de suas autoridades políticas com a realização desta que é a maior homenagem do país ao povo brasileiro e suas raízes.

Aqueles que veem no Fefol fonte de cultura e conhecimento, aqueles que têm no Fefol os seus momentos de recordações, de feliz melancolia, aqueles que bebem a cada edição na fonte do saber, querem realmente isso.

Mas, infelizmente, percebe-se, a cada ano, que o público vem caindo vertiginosamente. Neste terceiro ano do atual governo espera-se que haja reação, o que duvidamos.

Enquanto isso, permanecem bastante atuais os dilemas postos aqui: o Fefol quer ser grande, ou quer ser essencial? E para ser grande implicaria, necessariamente, perder a essência? E, ao contrário, ser essencial implicaria em ser para poucos? Quem irá responder?

Por ora é preciso que os poderosos de plantão na cidade entendam que o Festival do Folclore tem uma função histórico-social, uma responsabilidade cultural que não se tem como medir em relação ao país e seu povo.

Um valor imaterial inominável. Falta esta gente compreender isso. Afinal, repetindo a mim mesmo, só se pode amar e respeitar aquilo que se compreende. Se não, a alma não reage.

O FESTIVAL DO FOLCLORE E A HISTÓRICA NEGLIGÊNCIA COM SEU POTENCIAL

Doutor Welson Tremura fala ao público em simpósio desprezado pelos organizadores do Fefol

É melhor que ainda não se deixem assoberbar os organizadores do 53º Festival do Folclore de Olímpia.

Pois este é o grande inimigo das pessoas e coisas feitas por elas, no que diz respeito à nossa festa maior. Por ora, todo trabalho feito pela Comissão Organizadora e a Secretaria de Cultura, pode ser classificado, por conta das circunstâncias, como uma espécie de “ato de contrição”, embora não sejam exatamente os “pecadores”.

Dito isso, espera-se que, para o ano que vem, ou para edições mais adiantes até – uma  vez que a pouca atenção dispensada a evento tão importante em nível de Brasil vem de muito anos – haja uma volta à profundidade que o Festival anseia, conscientes de que o Fefol não deve ser só danças no palco. Aliás, mestre José Sant’anna quem dizia sempre, que as apresentações no palco eram o apogeu dos dias de Festival.

Doutora Tatiane fala ao público no mesmo Simpósio, suscitando depois profundo debate

E assim deve ser encarado se quisermos despertar novamente o interesse de pesquisadores, estudiosos, ou mesmo de curiosos em busca de informação e conhecimento. E só as danças não suprem esta característica.

‘MARATONA DE QUEM CONHECE MAIS’
Já não é de hoje que a grande preocupação no entorno da festa tem sido quantos grupos foram contratados, que grupos foram contratados, que grupo nunca veio, que grupo virá de novo, quantos folclóricos, quantos parafolclóricos, assemelhando-se a uma “maratona de quem conhece mais e melhores grupos”.

Certo que a seleção criteriosa de participantes é importante, mas não deve ser a única e principal preocupação, como se tem notado. E isso não é de agora. Teve anos ainda piores, onde as atrações cênicas mais se aproximavam do teatro musicado do que da representação folclórica necessária e sempre priorizada por Sant’anna quando da escolha dos parafolclóricos.

Este ano, a propósito da reintegração de um elemento-chave no âmbito das contratações, parece que houve uma ligeira guinada à busca da qualidade aliada à plasticidade de cena. Melhor que a qualidade tenha sido em maior grau.

Houve também um nível de respeito mais elevado em relação aos grupos folclóricos -embora, claro, manifestações individuais ou de grupos eivadas de preconceito e discriminação tenha-se presenciado em diferentes momentos.

SÍMBOLOS DA PERENIDADE
Então, o perigo que se impõe à nossa festa, é o da superficialidade, é o da ideia de que palanque basta e as programações constantes de todos os anos idem como símbolos de sua perenidade. Mas, que tal a preocupação com o aprofundamento disso tudo?

Nós temos tido a oportunidade de acompanhar uma programação que ainda não faz parte oficialmente da oficial do Folclore e que, a nosso ver, tem sido um desperdício de informação e transmissão de conhecimento: os simpósios étnicomusicais que há pelo menos três anos vêm sendo realizados por esforço de um olimpiense amante à toda prova de nosso Festival.

Por que não incorporar estes encontros ao Fefol, agregando a ele público, por exemplo professores da rede pública municipal e estadual, que depois poderiam usar em sala de aula com seus alunos, além de apenas lhes ensinar a dança, também lhes ensinando conceitos, formas, origens, e tudo o mais que permeia o tema?

PARA QUE O FEFOL FOI CRIADO?
E não só este tipo de simpósio. Há outras tantas ideias e assuntos que se encaixariam no dia-a-dia do nosso Fefol, fazendo com que as atividades, para muito além dos brinquedos tradicionais e infantis, sejam todos os dias, o dia todo. Dias de irradiação de conhecimentos e cultura, que afinal é para isso que o Fefol foi criado. E repensá-lo neste aspecto seria fundamental.

Personagem de um dos grupos de Moçambique mais constante no Festival de Olímpia

Vai dar mais trabalho, não restam dúvidas. Mas com certeza nosso evento ganhará, e muito, em prestígio, respeito e importância junto à Academia, imprensa -falo daquela imprensa que trata o tema com profundidade, nãos as inserções televisivas, não raro pagas e festivas.

Traria de volta aquele público que hoje abandonou nosso Festival: os pesquisadores acadêmicos ou não, os curiosos em busca de informação e cultura, instituições, entidades nacionais e internacionais de estudos do Brasil.

SALÃO DE EVENTOS
Também aí surge uma outra ideia, já que o prefeito Fernando Cunha falou em cobrir a arena do Recinto para “o povo não sentir frio”.

Considerando que o alcaide é engenheiro e deve saber muito bem em que conceito se insere a estrutura arquitetônica da arena, sugeriríamos que, ao invés disso, fosse aproveitada uma das barracas, com as devidas reestruturações, e transformada em um salão de convenções, simpósios, debates, onde todos os eventos extra-palco pudessem sem realizados, com conforto e segurança.

Claro, isso se houver a intenção de sairmos da mesmice a que o Fefol está mergulhado, de modo geral, e passarmos a tratá-lo, de novo, como um evento de cunho cultural, não apenas de espetáculos de dança, haja vista a pouca identidade da maioria dos grupos que para cá são chamados,  com o fato folclórico, propriamente dito.

Hoje percebe-se um distanciamento maior, uma teatralização maior (no que o teatro tem de livre representação), um colorido às vezes absurdo, exagerado, não contando os elementos novos incorporados, sabendo-se que para alguns deles, com certeza, Sant’anna faria muxoxos e “rabo-de-olho” para quem estivesse do seu lado. Ele não admitia heresias. Grupos deixaram de ser chamados ou vieram apenas uma vez e não mais por conta disso.

DEDICAÇÃO MAIOR DO SITE OFICIAL
Outro aspecto a ser abordado, e este é muito grave. Não começou agora, não era nem nunca foi a praxe, mas para que nosso Festival consiga repercussão no meio acadêmico, dos pesquisadores, estudiosos, etc., assim até facilitando as negociações em busca de verba junto às esferas estadual e federal, é preciso que haja uma dedicação mais extremada com o site do Festival, que nos anos todos apenas tem servido para acomodar os releases sobre o evento.

Os Parafolclóricos, quando próximos do Folclórico, acrescentam sentido ao evento

Por exemplo, tivemos aqui, na sexta-feira, o simpósio já citado acima, no qual um dos palestrantes era nada mais, nada menos, que o olimpiense Welson Alves Tremura, doutor em musicologia-etnomusicologia nos EUA pela “Florida State University” (FSU), entre outras atribuições, que falou um pouco -e esse pouco valeu ouro, sobre Folclore, música, tradição e sua relação, enquanto brasileiro, com as muitas visões do estrangeiro sobre sua terra natal e suas manifestações culturais.

Também Tatiane Pereira de Souza, olimpiense neta de José Ferreira, capitão do Terno de Congadas Chapéu de Fitas, grupo que inspirou-a a iniciar pesquisas sobre africanidade e suas culturas, além de outros temas de caráter antropológico, agora cursando pós-doutorado na Unesp, e outras “feras” com portfólio acadêmico de fazer inveja a qualquer um.

E sabem para quantas pessoas falaram? Se muito, 15 abnegados olimpienses e integrantes de grupos. Ninguém da Comissão, ninguém da organização da festa, ninguém para colher ali rico material ilustrativo da essência do nosso festival, a fim de abastecer o site do Folclore com entrevistas, fotos, impressões de especialistas, por exemplo, material que repercute no mundo acadêmico e de pesquisas, e que precisa ser alcançado, para o bem de nosso Festival.

A organização e realização de tudo isso, às vezes dando “murro em ponta de faca”, “comendo o pão que o diabo amassou”, foi de outro olimpiense, Estevão Amaro dos Reis, músico com doutorado em Etnomusicologia na Unicamp. É preciso pegar rápido, com as duas mãos, este trabalho, incorpora-lo à programação oficial e a cada ano aprimorar mais, a fim de despertar novamente o interesse acadêmico, histórico e cultural da nossa festa.

CORREÇÕES À VISTA?
Não se faz aqui análises fáticas sobre a edição deste ano do Fefol. Melhor fazer esta “cobrança” por profundidade maior, já que é quase consenso ter tido esta edição resultados positivos no que diz respeito ao seu aspecto de festa, propriamente dito, embora os senões que certamente serão corrigidos para o ano que vem.

No aspecto estudos, discussões, debates, troca de conhecimentos e culturas, transmissão do ideário folclórico, porém, ficou a desejar. Não é culpa dos organizadores de agora. Esta situação vem num crescendo que, espera-se, agora tenha um fim. A considerar o esmero com que foi tratado o lado festa do Festival, é possível vislumbrar melhoras consideráveis no lado cultural.

Aproveitando que, parece, tem-se agora um prefeito que gosta do Festival. O último a demonstrar interesse e amor por ele já data de mais de 30 anos e nem entre nós está mais. Portanto, o 53º Fefol acendeu as luzes de todas as boas expectativas possíveis. Espera-se que não seja “fogo de palha” de principiantes.

TOMARA QUE SÓ O CARTAZ SEJA TEMPORÁRIO…

O site de noticias “Diário de Olímpia”, de Leonardo Concon, publicou na semana passada, com o selo de “exclusivo”, noticia de que o atual governo de Olímpia (leia-se prefeito Fernando Cunha [PR]), “por meio da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, está revendo alguns aspectos concernentes à organização do Festival do Folclore de Olímpia, inclusive no que tange ao Estado a ser homenageado neste 53º Festival do Folclore de Olímpia.”

Diz ainda que a secretária municipal de Cultura, Esportes e Lazer, Tina Riscali, está escolhendo, “de forma criteriosa”, qual será o estado homenageado este ano. Tirante a insinuação de que a Comissão anterior não teve critério nenhum ao escolher o Ceará como homenageado, o blog reputa como tremenda falta de respeito a unilateralidade da atitude da secretária, para começarmos a conversa.

Diz ainda o texto: “Segundo Tina Riscali, titular da pasta, uma das razões para tanto ‘é o atendimento ao princípio da economicidade, em decorrência das adversas condições econômicas que enfrentamos neste momento, pois, considerando-se os propósitos do evento, que é contribuir para a preservação do Folclore brasileiro, a prioridade da utilização dos recursos é para os grupos Folclóricos’”.

Devemos registrar que quando determinadas pessoas, em determinadas situações, enfatizam que o nosso Festival “é para os grupos folclóricos”, nos soa como mero eufemismo para “vamos fazer o que der”. Principalmente quando tais pessoas não são, digamos, do meio, seja folclórico, seja cultural ou assemelhado.

É que nosso Festival, passado Sant’anna, tem sido vítima, sistematicamente, da aleivosia (no sentido estrito do termo) dos burocratas de plantão.

Continuemos a ler o texto: “No que se refere aos parafolclóricos ou de projeção folclórica, estão sendo realizadas diligências para que os órgãos públicos dos Estados e municípios de que são oriundos se encarreguem, em parceria com Olímpia, de efetuar as despesas relativas ao transporte, pelo menos. ‘Já constatamos que não haverá recursos públicos das entidades governamentais do Estado para o grupo parafolclórico que o representaria, e que tinha sido anunciado pela Comissão Executiva do Festival anterior’, conclui Tina.”

Não sei. Nos parece um pouco demais esperar muito de terceiros, quando temos uma responsabilidade enorme sobre aquilo que criamos e vimos executando ao longo dos últimos 52 anos. Esta ajuda esperada é lenda, sempre foi lenda e sempre será lenda. Quando ocorria, nos lembramos bem, era motivo de “júbilo e contentamento”, para usar um classicismo ao gosto de poucos.

O que seria o cartaz do 53º Festival, divulgado na rede social do Fefol em outubro do ano passado, traz ‘Lampião’, do grupo cearense de xaxado Maria Bonita, grupo que havia sido selecionado para homenagear aquele estado agora em 2017.

“Imediatamente, o Diário de Olímpia ouviu reclamações de membros da então Coordenadoria do Festival de que a escolha não foi acertada e que haveria contrariedades, inclusive porque a escolha estava sendo feita de forma unilateral e deixando-a para o próximo governo”, relata Concon.

Bom, se houve reclamações “de membros da então Coordenadoria”, por que não se resolveu a questão antes de se fazer o anúncio? E por que a escolha não havia sido acertada? Quais contrariedades havia, e da parte de quem ou quais pessoas? A escolha foi feita “de forma unilateral”? Quem escolheu sem o consenso necessário? E por quê?

Lembremo-nos de que nos últimos anos era assim que se procedia. Anunciava-se o grupo ao final da festa, para o ano seguinte. Mas, de fato soa estranho este anúncio em final de Governo. Principalmente levando-se em conta que há mudanças de egos na condução da festa, antes de mudanças estruturais e de condução das coisas. O ego, este que sempre foi o pior algoz do Fefol olimpiense.

No primeiro Fefol de Geninho, em 2009, não houve homenageado, prática que se iniciara no Governo anterior, de Carneiro. Foi feita uma tentativa de remodelação da festa -da mesma forma que agora se pretende, trazendo-a para “suas origens”. E deu no que deu. Consta que o próprio ex-prefeito se arrepende até hoje.

O texto encerra de forma enfática: “A capa temporária do Fefol deste ano foi apenas temporária. E ponto final.”

Considerando que este, então, seja o problema maior, o blog pergunta: a partir deste começo de ação em torno do evento, e pelas pessoas envolvidas, além do que já se sabe superficialmente, baseado no texto tratado acima, e pelas declarações dele extraídas, será que só o cartaz “é temporário e ponto final”?

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