Blog do Orlando Costa

Verba volant, scripta manent – 12 Anos

NOSSA VELHA ESTRADA DE FERRO, NOSSO PATRIMÔNIO, ÀS TRAÇAS

Notei esta semana que este post de 19 de maio de 2009 começou a atrair muita atenção e alguns comentários a respeito começaram a chegar, inclusive despertando o interesse de outros leitores que, tendo adquirido o hábito de acessar este blog recentemente, desconheciam esta postagem. E como também a julgo importante, e creio que muitos que não a leram vão gostar também, até por fazer parte de nossa história, nossa cultura, tomo a liberdade de republicá-la, como contribuição cultural à cidade e seu povo.

O povoado de Álvora, com seus trilhos

O povoado de Álvora, com seus trilhos

Amigos do blog, como nos últimos dias o assunto estrada de ferro da Fepasa veio à tona por conta dos terrenos ocupados e “grilados” da cidade, resolvi buscar um pouco da história desta nossa saudosa época em que a Maria Fumaça cruzava “lépida e fagueira” a cidade, com seu enorme “cachimbo” fumacento e seu grito estridente, fazendo a alegria da molecada.

E, leiam abaixo o que pude apurar, é quase toda a história do nosso ramal, vindo desde Monte Azul Paulista, seguindo até Suinana, um dos pequenos e bucólicos lugarejos surgidos graças à estação do trem. Destes todos, somente Monte Azul, Cajobi, Olímpia, Severínia e Altair ganharam foros de cidade. Os demais chegaram a no máximo distrito, ou permaneceram como meros povoados. (Quaisquer outros detalhes, procurar “Estações Ferroviárias do Brasil”, principal fonte destes dados)

HISTÓRICO DA LINHA
A Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Goiaz começou a operar em 1910 ou 1911, dependendo da fonte, com a intenção de levar os trilhos até Goiás, partindo da estação de Bebedouro. As linhas também seguiriam dessa estação da Paulista até a estação de Passagem nos anos seguintes.

Em 1914, a empresa faliu e em 1916 foi constituída a partir da massa falida, que continuava operando, a Cia. Ferroviária São Paulo-Goiaz. Nessa altura, a linha seguia de Passagem a Villa Olímpia (Olímpia), passando por Bebedouro, com um ramal saindo de Ibitiúva a Terra Roxa.

Em 1927, a Paulista comprou todo o trecho entre Passagem e Bebedouro, incluindo o pequeno ramal; a CFSPG passou a operar apenas o trecho Bebedouro-Olímpia, que em 1931 foi esticado até Nova Granada. A ferrovia, de bitola métrica, que deveria cruzar a fronteira próximo a Icem, na Cachoeira do Marimbondo, nunca passou de Nova Granada nem chegou a Goiás.

Em 1950, a Cia. Paulista a adquiriu e a transformou no ramal de Nova Granada. Este, depois de receber pesados investimentos durante os dez anos seguintes, acabou por ter o trecho final (Olímpia-Nova Granada) suprimido pela Paulista já estatal, em 1966, e em 2/1/1969, todo a linha restante também foi extinta.

Os trilhos e as propriedades foram arrancados e vendidas pouco tempo depois. Dela pouca coisa restou, tendo a grande maioria das estações sido demolida. 
 
A ESTAÇÃO
A estação de Villa Olimpia foi inaugurada juntamente com o prolongamento da ferrovia, em 1914, e permaneceu como estação terminal da linha até 1931, quando houve o prolongamento até Nova Granada.
No final dos anos 30, a denominação mudou para a atual. A partir de 1950, com a aquisição da ferrovia pela Companhia Paulista, passou a fazer parte do ramal de Nova Granada. Em 1966, com a desativação do trecho aberto em 1934, voltou a ser estação terminal, até o início de 1969, quando o resto do ramal foi suprimido.

Foi uma das poucas estações que sobreviveu em pé, e hoje é utilizada como cozinha da Prefeitura. Não muito longe dela, a casa que pertenceu a dona Maria Olímpia, hoje museu, abriga a seu lado uma velha locomotiva, que, segundo Rodrigo Cunha, nunca teria trafegado pelo ramal, tendo sido utilizada na verdade pela Mogiana, em outras paragens: uma 4-6-0 Beyer-Peacock (Panco).

UMA HISTÓRIA
DE VIAJANTE
“A última vez em que viajei no ramal de Nova Granada, foi indo a Olímpia, onde tenho parentes, nas férias de julho de 1964, quando eu tinha apenas 8 anos de idade. Lembro apenas que, dos três trens que pegávamos, partindo do Rio até SP pelo confortável Santa Cruz da EFCB, passando para o luxuoso trem da CPEF (estatizada havia pouco tempo, portanto, ainda com algum vestígio da época de ouro) até Bebedouro, realmente o que mais me fascinava era o trenzinho do ramal, de vagões de madeira, lustrados como se houvessem passado óleo de peroba, com seus vidros limpinhos, ostentando o legendário símbolo CP, puxado pela Maria Fumaça através de bosques e plantações, o cheiro de lenha, eucalipto, fumaça, aquela paisagem rural que tanto atrai a nós, moradores de grandes centros, as estações (não me lembro quais) com jardins floridos, o entra-e-sai dos passageiros, carregadores de malas, vendedores de guloseimas, enfim, um verdadeiro coquetel de atrações que me ficaram na lembrança e me causam maravilhosa sensação até hoje” (Luiz Antonio Mathias Neto, 2001).

OUTRO RELATO DE
ANTIGO USUÁRIO
“Quando garoto, minha mãe levava-me para a cidade de Olímpia, para visitar minha avó e tias. Tomávamos o trem azul da Companhia Paulista na Estação da Luz, e chegávamos bem cedo em Bebedouro, por volta das 7:00 horas da manhã. Lá fazíamos a baldeação para a E. F. São Paulo-Goiás, um trem a vapor, com uma locomotiva com detalhes em verde e diversas peças cromadas reluzentes e com seu característico cheiro de vapor e carvão.

O trem, com seus vagões extremamente limpos e vidros tão transparentes que um dia, em uma das vagens, um dos passageiros resolveu colocar seu cotovelo para fora da janela e acabou por quebrar o esmerado vidro da janela.

Veio o fiscal e deu uma baita bronca no sujeito, que ficou extremamente humilhado e acabou por pagar pelo seus danos. Nas subidas, a Maria Fumaça mostrava a sua dedicação, mas sua velocidade diminuía, a ponto de alguns rapazes descerem para apanhar algumas mangas de árvores que ladeavam a ferrovia.

E quando a “velha senhora” sentia o aclive diminuir, ganhava velocidade, e os aventureiros corriam para subir no trem novamente, sempre observados pelos curiosos passageiros, para ver se alguém não tinha ficado para trás. Às gargalhadas, e com certo orgulho, os aventureiros começavam a comer suas frutas. Algumas vezes, quando chegávamos em Bebedouro, não havia o trem. Sei lá por que.

Então o recurso era uma jardineira que era denominada Jardineira do Zé Pedro, que fazia o percurso em estrada de terra até Olímpia. E quando chovia, era um drama, mas a velha jardineira nunca nos deixou na estrada” (Décio Cezaretti, 09/2003).

A ESTAÇÃO DE
MONTE AZUL PTA.
Descendo na estação ferroviária de Bebedouro, vinham os primeiros habitantes de Monte Azul para a vila nos troleis de Jacob Witzel, dono da empresa dos carrinhos puxados por tração animal. Em 1908, o coronel João Baptista de Oliveira Cardoso iniciou um movimento junto à população e autoridades para fazer chegar a ferrovia até a cidade.

Esse movimento ganhou força e finalmente em 06/04/1909 começou a abertura dos locais por onde passariam os trilhos entre Bebedouro e Monte Azul. Para marcar o início das obras foi cortado simbolicamente o primeiro galho de árvore por Joaquim da Costa Penha. O trabalho de “picada”, ou seja, o de abertura dos locais para o assentamento dos trilhos, terminou no dia 20/07/1909 e nove meses depois de iniciado, a linha da CEFSPG chegou à cidade, em 04/01/1910.

No dia 5 de março, menos de um ano após o início da obra, o primeiro trem chega na cidade. Porém, nem tudo foi euforia com relação a estrada de ferro. Houve protestos de grande parte da população que não concordava com a passagem dos trilhos no meio da cidade; queriam-nos, eles e a estação, fora dela.

Os relatórios da Cia. Paulista – que comprou a E. F. São Paulo-Goiaz, sucessora da original, em 1950 – dos anos 50 dão a inauguração da estação como tendo sido no mês de março de 1911, um ano após o citado acima, que parece mais confiável, visto ter como fonte jornais da época, enquanto a Paulista herdou informações da extinta Cia. E. F. São Paulo-Goiaz.

Porém, quando a ferrovia foi desativada, em 1968, a retirada dos trilhos provocou protestos da população. Os trilhos teriam sido retirados dias após a desativação, e, não muito tempo depois, a Prefeitura demoliu a estação, sendo que em seu lugar foi construída uma indústria. (Fonte principal: João Francisco Massoneto, Monte Azul, SP).

A ESTAÇÃO DE
MONTE VERDE PTA.
A estação de Monte Verde, também chamada a partir dos anos 50 inicialmente de Cajobi e finalmente de Monte Verde Paulista, foi inaugurada em 1911, no primeiro trecho aberto pela São Paulo-Goiaz. Foi a estação terminal da linha até 1914, quando ela foi prolongada até Olímpia.

A partir de 1950, com a aquisição da ferrovia pela Companhia Paulista, passou a fazer parte do ramal de Nova Granada. O nome de Cajobi veio do município ao qual a estação pertence até hoje, mas, como se situava fora da sede, teve o nome novamente alterado para o original.

A estação funcionou até sua desativação no início de 1969, e seus trilhos foram retirados logo depois. A estação foi demolida, ao que parece não muito tempo após o fim, e hoje o local é ocupado por casas simples, ainda existindo algum terreno vago.

O que existe hoje não lembra em nada o que aquilo foi no passado, e somente se sabe sua origem por antigos moradores da região. A vila é pequena, e uma de suas duas ruas principais passa pelo antigo leito da ferrovia. 
 
A ESTAÇÃO DE
SEVERÍNIA
“A cidade de Severínia foi fundada por José Severino de Almeida e seus filhos, proprietários da fazenda Bagagem, de plantação de café e criação de gado. Em 1913 (nota do autor: em outras fontes consta como 1911), a E. F. São Paulo-Goiaz inaugurou a estação de Monte Verde e, 9 km além, fazia apenas uma parada em terras da fazenda Bagagem.

Em vista de necessitarem de uma estação no local da referida parada, os fazendeiros da circunvizinhaça formaram uma comissão para pleitear aquele benefício junto à ferrovia. José Severino de Almeida doou 50 alqueires de suas terras para a formação do patrimônio de São José de Severínia, em 19 de fevereiro de 1914, e a estação foi construída às expensas dos fazendeiros da região.

Julgaram os doadores que à estação seria dado o nome de Severínia, e foi com espanto geral que, no dia da sua inauguração, viram figurar na respectiva placa o nome de Luiz Barreto, em homenagem ao famoso médico e não ao velho sertanejo José Severino.

Houve reclamação da política dominante, nada conseguindo porém. Somente em 1921 a estação recebeu o nome de Severínia, quando o patrimônio foi elevado a distrito de paz com essa denominação. O distrito voltou a chamar-se Luiz Barreto em dezembro de 1931, mas novamente renomeado como Severínia em dezembro de 1938″ (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXX, IBGE, 1958).

A partir de 1950, com a aquisição da ferrovia pela Companhia Paulista, passou a fazer parte do ramal de Nova Granada. A estação servia às fazendas do sr. Jeremias Lunnardelli, “rei do café” no Brasil (Orlando Junqueira Franco, São Paulo, 1999).

A estação funcionou até sua desativação no início de 1969, e seus trilhos foram retirados logo depois. A estação foi demolida, ao que parece não muito tempo após o fim, e em 2000 o local já estava ocupado por casas, ainda existindo algum terreno vago.

O que existe hoje não lembra em nada o que aquilo foi no passado, e somente se sabe sua localização por antigos moradores da cidade. A vila original se tornou sede de município, e a estação ficava onde hoje é um dos limites da área urbana. (Fontes: Relatórios da E. F. São Paulo-Goiaz; Relatórios da Cia. Paulista de Estradas de Ferro; Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXX, IBGE, 1958; Orlando Junqueira Franco, 1999; dados do próprio autor do site em visita à cidade em 2000;Revista SPR, suplemento especial sobre a SPG, 1941).

A ESTAÇÃO
DE ÁLVORA
A estação de Alvora foi inaugurada juntamente com o prolongamento da ferrovia, em 1914. A partir de 1950, com a aquisição da ferrovia pela Companhia Paulista, passou a fazer parte do ramal de Nova Granada. A estação funcionou até sua desativação no início de 1969, e seus trilhos foram retirados logo depois.

A estação ainda existe, com uso não determinado. “A vila está quase no fim, fim este que começou a se pronunciar na grande geada do inverno de 1975. Com ela foi-se o café, que dava emprego e sustendo para muita gente nas vilazinhas da região. Veio o gado, veio a cana, veio a laranja e foi-se a ocupação de tempo integral. Ficaram apenas algumas crianças, muito novas para partir, e os velhos, sem já ter para onde ir” (Douglas Razaboni, 04/2003).
 
A ESTAÇÃO DE
MARCONDÉSIA
A estação de Marcondésia foi inaugurada em 1911, no primeiro trecho aberto pela E. F. São Paulo-Goiaz. A partir de 1950, com a aquisição da ferrovia pela Companhia Paulista, passou a fazer parte do ramal de Nova Granada, onde funcionou até ser desativada no início de 1969, e ter os trilhos retirados logo depois.

Hoje Marcondésia é um bairro afastado do município de Monte Azul, pequeno, sendo a rua principal o antigo leito da linha. O local onde ficava a estação, demolida há tempos, é hoje um campo de futebol.

A ESTAÇÃO DE
RIBEIRO DOS SANTOS
A estação de Ribeiro dos Santos foi aberta em 1931. Era uma vilazinha, que mais tarde se tornou distrito do município de Olímpia. Em 1950 passou a pertencer ao ramal de Nova Granada, com a compra da São Paulo-Goiaz pela Cia. Paulista. Em 1966, foi desativada juntamente com o trecho Olímpia-Nova Granada. “Situada já no fim da vilazinha, a estação foi dividida e transformada em moradia, por duas famílias. Está mal conservada, não tem mais a cobertura da plataforma e seu pátio foi transformado em horta. Mandioca, chuchu, quiabo e o escambau ocupam agora o espaço dos trilhos e dormentes.” (Douglas Razaboni, 04/2003)

A ESTAÇÃO
DO KM 81
O posto telegráfico do Quilômetro 81 foi aberto em 1936. Segundo o relatório de E. F. Goiás para esse ano, “conforme consta do nosso Relatório de 1935, terminamos em 1936 a instalação dos postos nos Kilometros 81 e 97. Essa providência foi recomendada a bem da circulação dos trens”.

A ESTAÇÃO
DO KM 97
O posto telegráfico do Quilômetro 97 foi aberto em 1936. Segundo o relatório de E. F. Goiás para esse ano, “conforme consta do nosso Relatório de 1935, terminamos em 1936 a instalação dos postos nos Kilometros 81 e 97. Essa providência foi recomendada a bem da circulação dos trens”.

A ESTAÇÃO
DE ALTAIR
A estação de Altair foi aberta em 1931. Mais tarde tornou-se município. Em 1950 passou a pertencer ao ramal de Nova Granada, com a compra da São Paulo-Goiaz pela Cia. Paulista. Em 1966, foi desativada juntamente com o trecho Olímpia-Nova Granada.

Já foi demolida, e em seu lugar há hoje uma praça. “Nada sobrou da ferrovia em Altair. Num cenário que iria se repetir muito em outras estações da linha, o espaço que outrora abrigou a ferrovia é ocupado agora por uma pracinha com uma imagem do Cristo de braços abertos.” (Douglas Razaboni, 04/2003).

A ESTAÇÃO
DE SUINANA
A estação de Suinana foi aberta em 1942, de acordo com os relatórios posteriores da Cia. Paulista. Porém, a abertura de um posto telegráfico para facilitar cruzamentos (”providencia recomendada a bem da circulação dos trens, facilitando-lhe o cruzamento”) no km 116 ocorreu ainda pela São Paulo-Goiaz em 15 de outubro de 1934, de acordo com o relatório da Companhia para este ano.

Ou seja, era Suinana. Em 1944, os guias já mostram a estação, ou posto, com este nome, o que leva a crer que em 1942 tenha eventualmente havido a instalação de mais e melhores facilidades no posto, ou simplesmente da adoção do atual nome, que, antes, nos guias, constava apenas como km 116.

Em 1950 passou a pertencer ao ramal de Nova Granada, com a compra da São Paulo-Goiaz pela Cia. Paulista. Em 1966, foi desativada juntamente com o trecho Olímpia-Nova Granada. O prédio ainda existe, em boas condições, e aparentemente fechado. Talvez seja algum depósito.

Está à beira da estrada que liga Onda Verde a Altair e que, em boa parte do trecho, acompanha o leito do antigo ramal. É pequena, tanto o prédio quanto a plataforma. As casas próximas a ela parecem ter sido da vila ferroviária, também. O lugarejo no seu entorno é muito pobre, tendo cerca de 30 a 40 casinhas muito simples e recentes. (Fontes: Ralph M. Giesbrecht, pesquisa local; Washington Luis Alves Junior, 2008; relatórios da EFSG, 1925-1936; Relatórios da Cia. Paulista, 1950-1969; acervo de mapas de Ralph M. Giesbrecht).

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